Monday, October 30, 2006

A Mãe eterniza seu filho

Tanto tempo esperando que ele viesse.
Primeiro foi um choque, foi terrível saber que toda sua vida mudaria, que nada seria como antes. Seu corpo mudou, sua sensibilidade aflorou, sua pele brilhava... Nada foi como antes até aquele momento.
Então tudo mudava de novo, o que foi ruim primeiro se tornou doce, se tornou um sonho, mas desmanchava de novo.
Seu amor, que cresceu do nada, que crescia como ele, e além dele, estava enorme agora... seu sangue jorrava e seu amor só crescia. Suas lágrimas e seu choro eram assustadores.
Seu filho nascia, antes do tempo. Ele morreria: não poderia sobreviver com tão poucos meses, sua barriga mal tinha começado a crescer.
Em seus braços o filho, ainda ligado pelo cordão umbilical, tentava chorar, parecia tentar gritar... mas não tinha fôlego, não tinha ainda meios para isso. Sua dor só fazia aumentar o amor de sua mãe, ela sofria com ele.
A morte lhe aterrorizou, pensar que seu filho deixaria de existir para sempre, que não seria mais que uma lembrança desvanecida, que aquilo tudo se perderia em brumas de um tempo promíscuo e irresponsável!
Sua vida toda mudou por ele e agora ele a deixava. Parecia não querer deixar vestígios físicos, parecia não querer deixar vestígios nem mesmo na memória. Seu grito silencioso enfraquecia mais, ele não mais se contorcia, sua vida acabava...
A dor do amor dela, a mãe, foi terrível!
Suas mãos sujas de sangue não queriam que ele partisse, que todo aquele sonho deixasse de existir. Não queria imaginar ter que limpar todo o lugar de seu sangue, de ver tudo escorrendo... de deixar o filho mal gerado ser devorado pela terra!
Devorado ele seria... de qualquer forma: por vermes ou pelo fogo! E ambos o tirariam dela para sempre, o teriam para si! Roubariam o filho que ela sonhou – mesmo sem saber, e que agora lhe fora tirado. Seu próprio corpo a traíra e expulsara seu filho...
Ele parou de se mexer... com uma expressão medonha de dor.
Tudo que sobrou à mãe foi um vazio dentro de si, e devia preenchê-lo. Havia uma forma de manter seu filho vivo para sempre dentro dela, de gerá-lo de novo em si, de fazê-lo eterno dentro de sua memória que permaneceria mesmo depois que ela morresse – ela tinha um nome, tinha uma vida, poderia carregar a memória de seu filho consigo.
Olhou-o pela última vez em suas mãos, abraçou-o, sorriu-lhe, e prometeu-lhe que de novo entraria em seu ventre e seria eterno lá.
Ao fim sua tristeza cedeu: até os ossos devorou.

1 comments:

|Machbrew: Arte em Doses| said...

Você me surpreende a cada dia que passa :)

Nunca vi um texto sobre aborto espontâneo tão visceral e belo. Aliás, qual o amor mais visceral do que o de uma mãe por um filho.


e aquela peça é diferente. A identidade visual é a mesma, mas o assunto é outro ;)

grande abraço